ALDEIA DE PEROCÃO COLECIONA 400 ANOS DE HISTÓRIA
Bairro nascido antes da cidade guarda origem indígena, negra e portuguesa e até hoje vive do mar, da fé e da tradição.
Assista à reportagem completa do Jornal Guarapari.
Considerada uma das regiões mais antigas do Espírito Santo, a Aldeia de Perocão, em Guarapari, reúne mais de 400 anos de história. O bairro nasceu antes da própria cidade e até hoje vive do mar, da fé e da tradição. Segundo a história local, a povoação remonta ao século XVI.
Uma professora aposentada, que nasceu, cresceu e se casou no bairro, conta que a origem da comunidade reúne indígenas que vieram fugidos das guerras no Rio de Janeiro, negros que não se deixaram escravizar e portugueses, os donatários da terra. Ela pertence a uma das famílias mais antigas da região.

“Nós tivemos negros que não se deixaram escravizar e formaram, segundo alguns relatos, uma das primeiras repúblicas negras do Brasil.”
Professora aposentada, moradora do Perocão
A mãe da professora, hoje com 84 anos, ainda se lembra de quando brincava e tomava banho no canal do Perocão, a grande distração da infância. A história do bairro também está nos detalhes: as primeiras casas eram de estuque e a água vinha de poço.
O peixe era conservado no sal e depois colocado ao sol para secar, e a comida do pescador era peixe com farinha de mandioca e um pouco de urucum para dar cor, já que carne de boi era luxo. Nos cortejos fúnebres, era preciso caminhar 11 quilômetros até Guarapari, com uma parada em uma pedra no caminho para jogar baralho e beber antes do sepultamento.

Vida em torno da pesca
Desde sempre, a vida no Perocão gira em torno da pesca. O pescador ainda sai de madrugada, volta com o sol a pino e vende o peixe para os veranistas. Hoje, barcos rústicos de madeira com motor pequeno permitem a pesca de garoupa, badejo, olhudo e manjuba.

Mas antes tudo era bem diferente. O filho do peixeiro mais antigo e mais querido da região lembra de um passado de casas de estuque e de palha, em que se dormia na esteira, e diz que o bairro é a paixão da vida dele e do pai.
“Esse lugar aqui é minha paixão. Então é a paixão da minha vida, do meu pai, eu tô aqui por ele.”
Filho do peixeiro mais antigo do Perocão
A fé também marca o bairro. A festa do padroeiro dos pescadores é modesta, mas reúne o Perocão inteiro. A aldeia, que começou pobre, se tornou rica em histórias: continua sem agência dos Correios e sem cartório, mas tem 1.000 habitantes e mais de 300 casas.
“A gente tem um espaço imenso para explorar a história, para explorar a questão de esportes, de mar aqui, a pesca, o remo. Então assim, né, dá para sonhar um cais revitalizado.”
Professora aposentada, moradora do Perocão